Desde os tempos romanos, muitos percorreram e alteraram os cenários do norte ibérico: os próprios romanos, os celtas, os mouros, os católicos, os peregrinos... E, hoje, quem atravessa a região são os gourmets, os apreciadores de vinhos, os aventureiros, os arqueólogos amadores, os fãs de história, os esotéricos e todos aqueles que querem conhecer mais sobre a mais famosa rota peregrina do mundo. Sim, é possível seguir uma boa parte do Caminho de Santiago de carro, visitando confortavelmente as belas cidades do caminho. Fazendo o aluguel do carro com a Mobility e retirando-o em Porto, Portugal, onde você inicia e finaliza esse roteiro de pouco menos de 2000 quilômetros, que podem ser percorridos de forma lenta, como uma boa refeição ibérica, para que cada porção seja apreciada como se deve.
Muitas são as belas cidades nos caminhos do norte português. Depois de alugar seu carro em Portugal, mais precisamente no Porto, você pode mirar seu GPS para qualquer uma delas e não irá se decepcionar. Os caminhos cheios de curvas das estradas secundárias convidam para vilarejos tradicionais. Mas somente Guimarães aparece nas 41 cidades citadas pelo jornal The New York Times como destino de viagem obrigatório em 2011. É que Guimarães será Capital Europeia da Cultura em 2012 e teve seu centro histórico declarado Patrimônio Mundial da Unesco há alguns anos. Ela merece: berço de Portugal, foi em Guimarães que D. Afonso Henriques venceu uma batalha contra os espanhóis em 1128 que levaria à formação do reino de Portugal. Restam construções dessa época, além de muitas outras dos século 15 (como o Palácio Ducal) ao 19 merecem a visita. A vizinha Braga é ainda mais antiga – a cidade é a mais velha de Portugal, fundada pelos romanos como Bracara Augusta há mais de 2000 anos. Capital da região do Minho, a cidade é conhecida pelas receitas de bacalhau, servidas nos restaurantes locais Veja Nota
, e pela forte cultura. Cheia de fontes, igrejas e palácios, Braga sedia o famoso Santuário de Bom Jesus do Monte, cuja escadaria do século 18 vale a subida.
Restaurantes de Braga
Falar de culinária portuguesa sem citar o bacalhau é heresia. Ainda mais quando se trata de Braga, um dos berços da cultura do país e de receitas famosas, como o próprio bacalhau à braga (frito em azeite). Para apreciar esse patrimônio local, visite restautantes como o Alexandre (Campo das Hortas, 10), que sempre tem um especial do dia fabuloso, e o vizinho Inácio, que, desde a década de 1930, preza pela adega bem recheada e pelas receitas tradicionais.
Antes de deixar Portugal para entrar em território espanhol, faça uma parada em Viana do Castelo, cidade conhecida pelas muitas festas típicas (quase todas de origem religiosa). Viana possui, obviamente, um castelo, o de Santiago da Barra, do século 16, e belas construções góticas no Paço do Concelho. Mas, se você estiver com pouco tempo, vá direto ao Miradouro de Santa Luzia para ter uma vista deslumbrante da região. De volta à rodovia N13, você deixará Portugal na localidade de Vila Nova Cerveira, entrando na cidade espanhola de Lovelle. Aproveite a paisagem cheia de curvas e chegue em Vigo no meio da tarde. Principal porto pesqueiro do Atlântico europeu, Vigo tem construções de várias épocas, sobretudo modernas, e guarda seu charme no bairro de Casco Velho. Em qualquer lugar podem ser encontrados restaurantes de ótima comida galega, baseada, sobretudo, em peixes e pescados. O crustáceo conhecido como percebes, uma iguaria local, é fabuloso, apesar da aparência bizarra. Se você tiver disposição para alguns quilômetros a mais, prove-o em Pontevedra, cidadezinha à beira-mar cheia de fiordes (chamados aqui de rias) e considerada uma das mais belas de todo o país.
Saia bem cedo para aproveitar ao máximo as experiências de Santiago de Compostela. Ponto final de uma peregrinação que remonta aos tempos medievais, a cidade tem na sua Catedral a principal e hipnótica atração. É lá que ficam os restos e o suposto manto de Santiago Veja Nota
, um dos apóstolos de Jesus Cristo. Construída entre 1075 e 1128, a catedral é o terceiro maior centro de peregrinação católica do mundo, perdendo apenas para Roma e Jerusalém Veja Nota
Santiago
Irmão de São João Evangelista, Tiago ou Tiago Maior (James em inglês) foi um dos 12 apóstolos de Jesus. Os dois irmãos, pescadores, erm muito próximos de Jesus e teriam sido os primeiros a segui-lo. Depois da crucificação de Cristo, Tiago teria ido para Iberia (hoje, Espanha). Ao voltar para Jerusalém, foi decapitado por Herodes em 44 d.C. Em uma época incerta, seu corpo teria sido transportado de volta para a Espanha, colocado em uma arca de pedra, e sepultado onde hoje fica a catedral.
. Os incontáveis detalhes da construção merecem uma longa visita – veja o Portico de la Gloria, do século 12, com a reprodução de Jesus e seus apóstolos já gasta pelo toque de milhões de peregrinos ao longo dos séculos. Ao lado, o Parador de Los Reyes Católicos funciona hoje como um dos melhores hotéis do país – função que exerce desde o século 15, quando foi erguido como hospedaria para os peregrinos. Se a hipnótica catedral permitir que você se distancie, vá até o Paseo de la Herradura para ter uma vista da cidade. Um jantar no parador é uma forma maravilhosa de encerrar a noite. A construção tem três restaurantes premiados e elegantes – o mais informal deles é o Enxebre.
A peregrinação
Para os europeus da Idade Média, o mundo acabava em Finisterre, um cabo no litoral espanhol (hoje sabe-se que o ponto mais ocidental do continente é o Cabo da Roca, em Portugal, e o mundo não acaba nele). A região virou ponto de peregrinação ainda no século 9, atraindo pessoas vindas da França, da Inglaterra e da Espanha para cumprir alguma promessa ou ritual no “fim do mundo”. No caminho, uma vila na Galícia ganhou fama entre os peregrinos por ter um túmulo onde estariam os restos de São Tiago, trazidos de Jerusalém logo após sua morte e ali depositados. No local, foi erguida a Catedral de Santiago de Compostela, e este passou a ser o ponto final da peregrinação pelas rotas medievais de peregrinos de toda a Europa.
Uma boa pedida para a manhã é desviar da rota e partir no sentido do oceano, até Finisterre, a 83 km de Santiago de Compostela. Essa mítica cidade é o ponto final dos peregrinos, o local onde eles devem terminar a viagem queimando as roupas que foram usadas no caminho Veja Nota
. Depois, é hora de voltar no sentido do interior novamente para desbravar os caminhos da Galícia até Lugo, famosa pela muralha romana. Erguida há mais de 1.700 anos, ela permanece preservada (82 das 85 torres estão de pé) e enche a cidade de formas curvas. É possível subir nas construções para ver a cidade sob outro ângulo. Cidade cheia de boas praças e parques, Lugo convida ao descanso. É um bom local para provar receitas galegas, como as tripas cozidas (callos), carro-chefe do restaurante Verruga (Calle Cruz).
Os caminhos de Santiago
São várias as rotas dos peregrinos até a catedral de Santiago de Compostela. Para ser considerado um peregrino que cumpriu o caminho, é preciso ter feito os últimos 100 quilômetros a pé ou os 200 finais a cavalo ou de bicicleta. Os caminhos são:Caminho Francês – começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, entra na Espanha por Roncesvalles, nos Pireneus, e serpenteia por 800 km até Compostela. Este caminho se liga ao Caminho Aragonês, com saída em Somport e distância total de cerca de 980 quilômetros.
Caminho da Prata – seu início se dá em Sevilha (Espanha), passando por Chaves e Ourense, o que o torna o mais longo dos caminhos, com cerca de 1000 km. Pouco sinalizada, é também a rota mais difícil.
Caminho Primitivo - com saída em Castroverde, na Galícia, tem cerca de 140 km
Caminho do Norte - sai de Ribadeo, também na Galícia, e tem cerca de 220 quilômetros.
Caminho Português – tem vários traçados e a maior parte deles entroncam em Valença do Minho, de onde se estende por cerca de 130 quilômetros. Os mais usados são os caminhados que saem de Fátima, do Porto ou de Braga.
Caminho Inglês – apesar do nome, começa dentro da Espanha mesmo, em Ferrol ou Coruña, e tem mais ou menos 120 km. É inglês porque, durante a Guerra dos Cem Anos (séculos 14/15), os britânicos precisavam passar por ele para não pisar na França.
Caminho de Finisterra – é a continuação do caminho após Compostela, chegando àquele que era considerado o fim do mundo terrestre pelos europeus da Idade Média.
A viagem de pouco mais de duas horas entre Lugo e León deixa os terrenos da Galícia para entrar em Castela e Leão (ou Castilla y León). No caminho, uma parada em Villafranca del Bierzo, cidade medieval supercharmosa e de construções surpreendentes. Nessa cidade, a Catedral de Santiago, homônima da construção mais famosa da Compostela, é ponto de peregrinação do caminho e tem uma Puerta del Perdón do século 12 com larga história com os peregrinos. Outra parada deliciosa no caminho é Castrilo de Los Polvazares Veja Nota
, cidade-berço da cultura maragata (dos tropeiros), a quase 50 km antes de chegar em León. Hoje uma pacata e bela cidade histórica, León tem monumentos à altura de seu passado: ela foi a capital de um poderoso império a partir do século 10, que decaiu depois de unir-se ao reino de Castela, no século 13. O elegentérrimo Parador de San Marcos, antiga hospedaria de peregrinos do século 16, recebe em meio a relíquias históricas. Para o jantar, reserve uma mesa no Vivaldi, restaurante dentro do Museo de Arte de Contemporáneo de Castilla y León que é indicado pelo Guide Michelin (com preços bastante razoáveis): o mexido de camarão graúdo com grão de bico faz sucesso em qualquer estação do ano.
Castrilo de Los Polvazares
O tom de terra domina a paisagem dessa pequena cidade a 50 km de León, que há séculos era povoada por tropeiros que negociavam de tudo – vinhos, carnes, pescados e outros bens. Assim, as casas têm entradas largas e altas, para a passagem dos cavalos e asnos, e pátios internos espaçosos. Além do charme especial, Castrilo de Los Polvazares é a terra de uma típica receita espanhola, o cocido maragato, sopa com grãos e sete tipos de carne.
Verdade seja dita, 15 anos atrás Bilbao não fazia parte de nenhuma recomendação turística. Cidade portuária e industrial, a capital da província de Biscaia ainda sofria com as ações do movimento separatista ETA. A virada começou com a construção do Museu Guggenheim, aberto em 1997. Repleto de obras do século 20 (Picasso, Warhol, Koonig e outros), ele ficou famoso pelas formas inusitadas criadas por Frank Gehry. Depois da mudança visual, Bilbao passou a atrair pela gastronomia. A cozinha basca, que mistura ingredientes do mar com sabores da terra de forma criativa, virou uma das coqueluches dos gourmets no começo do século 21. Um dos maiores nomes da cidade é Fernando Canales, do Extanobe. Vale a pena também pegar uma mesa do Bermeo, restaurante do Gran Hotel Ercilla.
Em pleno norte espanhol, entre cidades medievais e rotas peregrinas, San Sebástian fica na divisa com a França e brilha como um dos destinos de verão favoritos dos europeus. Suas praias de águas em azul intenso fornecem o badalado cenário diurno; o noturno fica nas muitas mesas estreladas da cidade: a cidade é a capital da gastronomia basca, que, junto com a invenções do catalão Ferrán Adriá, mudaram o panorama gourmet mundial na última década. A especialidade é a variedade de pintxos, a versão basca das tapas, com porções para comer usando os dedos. O grande nome da cidade é, sem dúvida, Juan Mari Arzak, que construiu seu atual restaurante na casa onde passou a infância. Reservar é fundamental. Vale a pena explorar sabores menos famosos de San Sebástian, sobretudo na Parte Vieja, onde ficam os bares. Vá ao La Cuchara de San Telmo, atrás do monastério, para provar aquilo que seu chef jovem e informal chama de alta cozinha em miniatura: as novidades basca sem pompa e circunstância. Uma ótima opção de hospedagem na cidade é o elegante Hotel Maria Cristina, todo em estilo belle-époque, que funciona desde 1912.
É bom acordar cedo para aproveitar o clima praiero de San Sebástian. Se estiver calor, vá para La Concha, a praia mais famosa da cidade, com uma ilhota no meio, se deleitar com o mar. A opção para quando o mar não está para banho é subir (com seu carro alugado, claro) o Monte Urgull, de onde se tem uma magnifíca vista do pedaço. No alto, há um castelo do século 16 e uma réplica (em pedra amarela) do Cristo Redentor brasileiro. A estrada que liga San Sebástian a Burgos tem pontos usados pelos peregrinos que vão a Compostela. É um caminho que sai das montanhas verdes e cheias de escapas e vai ficando mais plano e desértico conforme se aproxima de Burgos. A enorme catedral da cidade, terceira maior do país, é sua maior atração. Em estilo gótico, tem um belo portal de entrada e detalhes que valem muitas fotografias. Dentro da catedral fica o túmulo de El Cid Veja Nota
, um dos grandes heróis clássicos da Espanha. A noite de Burgos é animadíssima, e começa bem tarde, só depois das 23h, nos arredores da catedral.
El Cid
Nascido no começo do século 11 em uma aldeia perto de Burgos, então capital do reino de Castela, Rodrigo (Ruy) Díaz de Vivar foi um nobre cavaleiro que lutou contra os mouros (muçulmanos) que dominavam a Península Ibérica. Apelidado de El Cid, conquistou sua primeira batalha aos 23 anos e, depois disso, passou a liderar grupos cada vez maiores na tomada de cidades do domínio mouro. Morreu aos 56 anos, em 1099, e foi sepultado na Catedral de Burgos ao lado do corpo de sua mulher, Jimena.
Deixando Burgos no caminho de volta para Portugal, você irá cruzar por pequenas cidades importantes para a história da Espanha medieval, sobretudo do período da expulsão dos mouros à expansão para as Américas. Uma parada em Valladolid vai lhe introduzir a uma das cidades mais ricas da Espanha atual, movida pela indústria automobilística e outros negócios. Mas ela é também um ponto importante para a história, esplendorosa dos séculos 13 ao 17 (foi em Valladolid que os reis Fernando e Cristina se casaram no século 16 e onde Cristóvão Colombo morreu um tempo depois. Outra parada interessante é Zamora, uma joia do estilo romanesco com igrejas dos séculos 13 e 14. A reentrada em Portugal, pela cidade de Miranda do Douro, marca a fronteira também das tradições: fundada por romanos e tomada por vários povos, a cidade tem muitas festas típicas, inclusive de influência celta (com gaitas de fole e saias para homens). Descanse em Bragança, principal cidade da região de Trás-os-Montes.
Perto da divisa com outros reinos, em uma época de disputas intensas, Bragança surgiu no século 12 já como cidade murada, com um castelo dentro. Não foi exclusividade local: muitas cidades da época foram erguidas assim em toda Europa, então dividida em pequenos reinos. Mas poucas permanecem tão preservadas quanto Bragança. Visite o Castelo, que possui uma Torre da Princesa como aquelas dos livros de contos de fadas. Antes de chegar ao Porto, faça um caminho mais longo e visite Chaves Veja Nota
. O ponto final (e inicial) deste roteiro para fazer com um carro de aluguel é a segunda maior cidade portuguesa: o Porto deve grande parte de sua riqueza ao vinho encorpado Veja Nota
Chaves
Dividida ao meio pelo rio Tâmega, a pequena cidade de Chaves é importante desde os tempos romanos, graças justamente à presença de sua preciosa água. Junto ao rio, subiram ladeiras com igrejas de diversos estilos arquitetônicos, casas azulejadas com varandas em ferro e um castelo. No Parque das Termas, cafés e bares fazem a animação a partir do final da tarde. É um ótimo lugar para esticar o final de viagem se você tiver tempo.
que leva o nome da cidade. É ele que encerra ou pausa as fabulosas refeições servidas nos restaurantes locais. E é com ele que você pode brindar para se despedir com estilo.
Vinho do Porto
Adocicado e com graduação alcoólica maior que outros vinhos, o Porto é bebido como digestivo. Ele é feito por um conjunto de uvas do qual faz parte a Touriga Nacional, a mais típica do Douro, e tem um tipo de aguardente usado na fermentação. A bebida é dividida em duas grandes categorias: o envelhecido na garrafa, de cor mais escura, como o vintage; e o envelhecido em barris de madeira, como os do tipo tawny. Os melhores locais para degustar e comprar garrafas do Porto estão em Vila Nova de Gaia.A influência dos ingleses foi forte na popularização da bebida – basta ver a quantidade de marcas que levam nomes ingleses. Presentes na região desde o século 18, eles dominaram a produção e o comércio naquela época para competir com os franceses e seu clarete.
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