O rio Douro, rio que nasce na Espanha e desemboca no Atlântico em Portugal, abriga uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo. É nele que começa essa viagem ao norte de Portugal, a Trás-dos-Montes e ao Minho, regiões rurais e tradicionais, de onde vieram a maioria dos portugueses que imigraram para o Brasil. É um pedaço repleto de cidades medievais e diminutas com gente hospitaleira e uma culinária fabulosa. A dica é fazer o aluguel do carro no Brasil e retirá-lo no Porto.
O Porto, sempre acompanhado do artigo “o”, é a segunda maior cidade de Portugal e portal para o norte do país. É a entrada ideal para uma viagem de carro ao longo do Douro, seguindo mais ou menos o curso do rio. Comece a viagem em Peso da Régua, pequena cidade que vive da cultura da uva desde os tempos do Marquês de Pombal (século 18), que a determinou como capital do vinho do Porto. Aqui, vale a pena visitar a Casa do Douro para conhecer a história do vinho na região. Vá até o Miradouro de São Leonardo, nos arredores da cidade, para ver o panorama do alto. Peso da Régua pode ser sua base para explorar outros vilarejos e as quintas (adegas) da região Veja Nota
. Independente da sua disponibilidade para explorar os arredores, não deixe de visitar a Casa de Mateus, na cidade de Vila Real, ao norte de Régua. Trata-se de um imenso casarão barroco à beira de um lago que espelha seus jardins simétricos.Vinhos do Douro
Várias vinícolas da região do Douro oferecem degustação e, algumas, até jantar. Os 900 quilômetros do rio, de Soria, na Espanha, ao Porto, já à beira do Oceano Atlântico, compõem uma das regiões vinícolas mais importantes da atualidade em todo o mundo. Do lado espanhol, do Rio Duero, são produzidos os conceituadíssimos vinhos Ribera del Duero. Do lado português, uvas de diferentes cepas geram tintos e brancos cada vez mais premiados. Entre Peso da Régua e Miranda do Douro estão, entre outras, a Quinta do Crasto, a Quinta São Luís, a Quinta do Panascal, a Quinta do Casal de Celeiros e a Quinta do Bucheiro, todas vinícolas de renome e, também, ótimas opções de passeio.
De Peso da Régua até Miranda do Douro, dirigindo por estradas secundárias, você irá conhecer vilarejos muito pequenos, locais onde moram não mais que 150 pessoas, gente que vive do jeito parecido de décadas ou séculos atrás. São aquelas vilas onde ainda hoje, na segunda década do século 21, viúvas vestem preto para o resto de suas vidas e batizados de crianças viram festas que duram um final de semana inteiro. Conheça localidades como Mirandela, com uma grande ponte romana de 20 arcos sobre o Rio Tua; a medieval Moncorvo, que tem a maior coleção ao ar livre do mundo de gravuras da Idade da Pedra; e Freixo de Espada à Cinta, cidade de nome curioso (que mereceu várias explicações) cuja paisagem é dominada por uma torre do século 14. Miranda do Douro, perto da fronteira com a Espanha, é também medieval. Centro cultural e religioso da região de Trás-os-Montes entre os séculos 16 e 18, ela merece um pernoite com direito a um farto jantar regional Veja Nota
. Se quiser um lugar com estrutura (e bela vista), vá direto à Estalagem Santa Catarina. Não estranhe se a língua aqui parece ainda mais esquisita: a região do Douro tem idioma próprio, o mirandês, reconhecido oficialmente pelo governo português em 1998. Trata-se de uma mistura de português e espanhol, mas que não tem nada a ver com o “portunhol” dos brasileiros.Comida do norte de Portugal
No interior de Portugal, e mais especificamente no norte, as refeições são tão demoradas e completas que parece que, quando acaba o almoço, começa o jantar. E não é exagero. Acompanhe. As sopas abrem a refeição, acompanhadas por pão e embutidos como o paio e o chouriço. Depois, vem o prato principal, que pode ser o porco assado ou cozinho com feijões e castanhas. As sobremesas podem trazer riquezas como o toucinho-do-céu (de amêndoas e ovos), os papos-de-anjo (de gemas) ou os pudins com vinho do Porto. Depois, chegam os queijos, como o Monte, de leite de vaca e de ovelha. Mas ainda não acabou: depois dos queijos vêm as frutas. E o vinho. E mais pão. E daí tudo começa de novo.
Bragança é hoje a principal cidade da região de Trás-os-Montes, graças, principalmente, à estrada que a liga diretamente ao Porto e segue para a Espanha. Mas sua importância é anterior ao automóvel. No século 12, D. Afonso Henriques decidiu fazer aqui uma cidade murada, com um castelo (construído em 1187) dentro, costume que era comum na Portugal daquela época. A diferença é que Bragança é um dos poucos lugares a manter sua cidadela praticamente intocada até hoje. Vale a pena viajar no tempo caminhando pelas ruas e visitando pontos estratégicos como o Domus Municipalis (uma sala de reuniões em estilo românico), a Porta da Traição e o Castelo, com uma Torre da Princesa que parece saída dos livros. Se você quiser esticar o passeio, o Parque Natural de Montezinho, mais próximo da fronteira com a Espanha, é uma área bastante selvagem (e fria também – vale levar um agasalho).
A rota tradicional indica que, depois de Bragança, o mais lógico é seguir para Braga, já na região do Minho. Mas você não pode deixar de visitar Chaves, no Alto Trás-os-Montes. Chaves atrai todo tipo de povo desde os tempos dos romanos, que vieram aqui atrás de suas águas termais e jazidas de ouro no primeiro século da Era Cristã. Depois vieram as invasões suevas, visigodas e mouras. Construções e ruínas de várias épocas retratam as diferentes caras da cidade. Até mesmo inscrições celtas podem ser vistas (no Penedo de Outeiro Machado, arredores da cidade). Fotografe muito a Ponte Romana sobre o Rio Tâmega, dos tempos do imperador Trajano (ano 100 d.C.) e a Igreja da Misericórdia, forrada com belíssimos azulejos do século 18.
A estrada que deixa Chaves para entrar na região do Minho é cheia de deliciosas surpresas: segundo os próprios, aqui reside o espírito português tradicional Veja Nota
. Braga foi batizada de Bracara Augusta pelos romanos e sofreu diversas intervenções durante a Antiguidade e a Idade Média. Como capital religiosa de Portugal e sede do arcebispado, Braga sedia belas procissões e eventos religiosos, principalmente durante a Semana Santa. Em qualquer época do ano, não deixe de visitar a Catedral da Sé (século 12), com um importante Museu de Arte Sacra; o Palácio do Raio, belo exemplo do barroco; o Paço Episcopal, adornado pelo belíssimo Jardim de Santa Bárbara e, obviamente, o Santuário de Bom Jesus do Monte Veja NotaSantuário de Bom Jesus do Monte
Uma imensa escadaria se ergue aos pés do Santuário de Bom Jesus do Monte. E elas são a atração principal dessa obra prima do barroco, mais do que o próprio santuário. Projetada na década de 1720, a igreja fica num topo, o que garante uma bela vista do pedaço. Suas escadas, rodeadas por jardins, têm paradas em capelas, como se formassem uma Via-Sacra diferente. No meio do caminho, o Escadório dos Cinco Sentidos tem belas fontes.
e sua famosa escadaria.O Minho
Cerca de 20% dos portugueses que se mudaram para o Brasil no século 20 são do Minho; 60% de Trás-os-Montes e o restante de outras partes do país. A região do Minho, entre os rios Minho (ao norte) e Douro (ao sul) não só é importante para os portugueses daqui como para os de lá, ja que é até chamada de Berço da Nação. Repleto de cidades históricas, com tradições seculares preservadas, o Minho se estabeleceu como celeiro agrícola ainda sob o domínio romano, no século 2 a.C. Depois, com a supremacia católica, virou o centro religioso do país. As feiras e festas refletem o rico passado: é do Minho que saíram os tradicionais trajes portugueses com lenços, aventais bordados e coletes que rodam o mundo representando os portugueses.
Barcelos, cujo nome é sempre lembrado por causa do galo que é símbolo de Portugal Veja Nota
, é o maior centro produtor de artes do país. A visita vale mesmo para não gosta de voltar para casa cheio de compras. Cerâmicas (em pratos e azulejos), esculturas em madeira, peças em renda e tecelagem: tudo se encontra aqui. Feitas as compras, desvie um pouco da rota e, ao chegar à costa, suba ao norte para conhecer Viana do Castelo. Importante centro durante a época das navegações, no século 15, a cidade guarda os arcos góticos desse período. Ao redor, outras construções, como as fantásticas mansões erguidas com dinheiro trazido do Brasil durante o período colonial, continuam bem preservadas.O Galo do Barcelos
O galo colorido, de longa crista, que enfeita dez entre dez casas de portugueses, é chamado de Galo de Barcelos e virou símbolo de Portugal. Diz a lenda que um peregrino de Barcelos ia para Santiago de Compostela (Espanha) quando foi acusado de roubo. Condenado ao enforcamento, pediu clemência ao juiz, que se preparava para comer um galo assado. O rapaz disse que era inocente e, como prova disso, aquele galo assado se levantaria do prato e cantaria. A lenda atesta: o galo cantou, o rapaz se salvou e a ave virou emblema de Portugal.
Vila Nova de Gaia surgiu como porto rival da cidade do Porto no século 13. Mas as duas cidades logo se uniram e, com a ascensão do vinho do Porto no mundo, ficaram ainda mais ligadas. É em Vila Nova de Gaia que ficam as principais caves do vinho do Porto Veja Nota
, locais onde as visitas de degustação podem tomar um dia inteiro. Aproveite para conhecer com seu carro alugado as mais tradicionais, como a Ramos Pinto (famosa por seus cartazes no começo do século 20), a Ferreira e a Sandeman – todas têm visitas guiadas. Para uma refeição memorável em Gaia, vá ao Quinta do Boucinho. Depois, é só voltar para o Porto e começar a sentir, desde já, saudades de Portugal.Vinho do Porto
Na composição do vinho do Porto entra a uva Touriga Nacional, a mesma de grande parte dos vinhos produzidos no Douro. Mas o Porto é um outro tipo de vinho: mais doce e com teor alcoólico maior, ele é usado para aperitivos e como digestivo. O teor alcoolico mais alto se explica também pela entrada de um tipo de aguardente no meio da fermentação, para interromper o processo. A bebida é dividida em duas grandes categorias: o envelhecido na garrafa, de cor mais escura, como o vintage; e o envelhecido em barris de madeira, como os do tipo tawny. A influência dos ingleses foi forte na popularização da bebida – basta ver a quantidade de marcas que levam nomes ingleses. Eles se instalaram na região no século 18, quando, sempre às turras com os franceses, trocaram o clarete francês pelo vinho do Porto. Em pouco tempo os ingleses dominaram o comércio da bebida pelo mundo, até serem freados pelo Marquês de Pombal. Hoje, o porto é o vinho mais exportado de Portugal e uma das bebidas mais apreciadas no mundo.
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