Que ilha é essa, desbravada por fenícios, ocupadas por gregos, tomada pelos romanos, habitada pelos árabes, construída pelos bizantinos e arrematada por artistas barrocos? Que ilha é essa de tanta cultura, tanta procissão, tantos pratos que correm o mundo e perfumam as mesas? Que ilha é essa que o cinema não cansa de mostrar, quase na África, mas mais italiana que tudo? Que ilha é essa de belas praias, ruínas, montanhas e o maior vulcão ativo da Europa? A Sicília é inexplicável. Só sentindo para saber.
Palazzo Abatellise a capela de San Cataldo, do século 12, com sua curiosa mistura de arquitetura árabe e decoração católica. Depois de passear por Palermo, siga para a medieval Castellamare del Golfo, antigo porto grego, forte árabe e importante ponto de pesca do atum. A próxima parada é Segesta, um importante centro grego. O conjunto de ruínas, muito bem preservadas, inclui um Templo do século 5 a.C. com 36 colunas dóricas e um fabuloso Teatro semicircular do século 3 a.C. Depois de fotografar muito, termine o dia na portuária Trapani, cidade com resquícios dos cartagenos, vândalos, bizantinos e saracenos.
Eis uma atração para quem aprecia arte. Dentro do Palazzo Abatellis, uma construção do século 15 que serviu de moradia ao magistrado Francesco Abatellis, funciona a Galleria Regionale della Sicília. São 16 salas com obras dos séculos 14 ao 16 como o afresco O Triunfo da Morte (autoria desconhecida), a Anunciação, obra mais famosa do mestre Antonello da Messina, esculturas de Domenico e Antonello Gagini e pinturas de Mabuse.
Culinária siciliana. Passe a tarde explorando as ruínas de Selinunte, um dos sítios arqueológicos mais importantes de todo o Mediterrâneo. Com construções fenícias e gregas feitas entre os séculos 7 a.C. a 5 d.C., trata-se de um conjunto de 10 templos e cidades. O mais fabuloso dos templos é o E, em estilo dórico, com 68 colunas. Detalhe: tudo fica de frente para o mar. Chegue ao entardecer em Agrigento. Aqui, também, as ruínas gregas dominam o cenário – como no fabuloso Valle dei Templi – mas misturam-se com construções medievais. Agrigento é a cidade-natal de Luigi Pirandello Veja Nota
A cozinha da Sicília está entre as mais apreciadas – e copiadas – no mundo. A riqueza de frutos do mar e a influência das cozinhas do Norte da África, da Grécia, Turquia e Oriente Médio fazem da ilha um centro de pesquisa para os gourmets e os gourmands. Passear pelos mercados, sempre ruidosos e perfumados, com muitas ervas, especiarias e peixes, é experiência obrigatória. Entre os pratos mais clássicos está a Pasta com le Sarde (macarronada com sardinha) e a Pasta al Nero di Seppia, um espaguete com um tipo de polvo. É também encontrado na Sicília o Cuscus Trapanese, feito com peixes, camarões e frutos do mar. A sobremesa mais clássica é a Cassata, um doce de influência árabe feito com ricota, frutas secas e creme, mas os sorvetes também são de enlouquecer.
Luigi Pirandelloe importante centro cultural na ilha.
Prêmio Nobel de Literatura de 1934, Luigi Pirandello nasceu em Agrigento, em 1867. Autor de vários romances, como O Falecido Mattia Pascal, ficou mais conhecido pelas peças de teatro, entre elas Seis Personagens à Procura de um Autor. Na Piazza Vittorio Emanuele, em Agrigento, é possível visitar a casa onde nasceu o escritor, que tem objetos da época e um pequeno museu sobre o autor. Em tempo: Pirandello morreu em Roma em 1936.
Interior da Sicília. É também daqui que partem passeios de barcos pelas fabulosas ilhas de Pantelleria, mais próxima da Tunísia que da Sicília; Lampedusa, de águas translúcidas onde vivem tartarugas marinhas; e Linosa, ilha vulcânica de casas coloridas. A terceira opção, para dar seqüência ao nosso roteiro, é sair de Agrigento costeando o litoral, fazendo uma parada em Licata, cidade com importantes igrejas bizantinas e praias que podem ser aproveitadas no verão. Pare para almoçar em Capo Passero, importante centro pesqueiro (de atum) de paisagem singular. Antes de chegar a Siracusa, faça uma parada em Noto, cidade cuja arquitetura barroca não tem comparação na Sicília – preste atenção na Catedral, no Palazzo Ducezio e no Palazzo Trigona. Siracusa é um importante centro econômico e cultural desde o período grego. O Teatro Grego, aliás, é a maior atração da cidade – datado do século 5 a.C., é um dos maiores exemplos de teatro antigo em todo o mundo. Fique de olho no calendário de festas Veja Nota
Nosso roteiro privilegia as cidades na costa da Sicília, mas o interior é também rico em construções históricas, fortíssima cultura e paisagens inesquecíveis. Uma boa maneira de explorar o meio da ilha é pegar as estradas que saem de Agrigento. À oeste da cidade, pelas rodovias SS189 ou SS118, estão jóias como Palazzo Adriano (a cidade onde se passa o filme Cinema Paradiso), Corleone (pela curiosidade cinematográfica, já que essa é a cidade do personagem fictício Dom Vito O Poderoso Chefão Corleone), Caltabellotta (uma cidade medieval toca construída na encontra do Monte Castello) e Mussomeli (uma jóia medieval com um castelo do século 14). Algumas das belas cidades a leste de Agrigento, acessíveis pela SS640, SS117 e SS191, são Enna (cidade montanhosa, alta, de forte influência bizantina e com o Castello di Lombardia como atração principal), Morgantina (cidade muito antiga, fundada no século 10 a.C., com belíssimas ruínas gregas e romanas), Piazza Armerina (construída ao redor de uma montanha na Idade Média) e Castello di Falconara (já próxima do litoral, com um belíssimo castelo do século 15).
Festas na Sicília: Siracusa é palco de algumas das mais belas da ilha.
Com exceção dos meses de inverno, a Sicília está sempre festa. Ricas procissões, com trajes que lembras a Idade Média, celebrações quase pagãs, festas de santos, festivais gastronômicos populares... há sempre alguma coisa acontecendo em alguma cidade da ilha. As festas mais especiais acontecem na semana da Páscoa, em toda a Sicília, com diferentes atos; em abril, com as procissões impressionantes de Giorni della Pena, em Caltanissetta; em junho, a festa de Pirandello, em Agrigento; e em julho, a Festa di Santa Rosalia, em Palermo.
Neapolis. No caminho para Catania, chama a atenção a cidade velha de Augusta, especialmente a Porta Spagnola, construída em 1681. Catania é a cidade mais ligada ao Etna Veja Nota
Passear pelo Sítio Arqueológico de Neapolis é percorrer várias épocas históricas em poucas áreas. Há relíquias pré-históricas, ruínas do período grego (na área chamada de Latomie, com construções feitas diretamente nas pedras), um imenso teatro grego, a Tumba de Arquimedes (século 2 a.C.), um anfiteatro romano e tumbas de cristãos do século 3.
Vulcão Etnae muitas das construções da cidade foram feitas com a lava negra do vulcão. Por essa mesma proximidade, a cidade foi destruída muitas vezes – a maior parte de seu contorno atual pertence ao século 18, quando ruas mais largas e construções baixas foram feitas para evitar efeitos de terremotos e diminuir as conseqüências de uma erupção. Não deixe de visitar, além do Etna, claro, o Mercato della Pescheria, na Via Garibaldi, especialmente animado de manhã. O Teatro Romano, com capacidade original para 7 000 pessoas, e o Castello Ursino, construção medieval do século 13, também são atrações da cidade.
Maior vulcão em atividade na Europa, o Etna é a Sicília – e o contrário também é válido. Seu histórico de erupções conta histórias de ascensões e quedas na ilha. As maiores tragédias aconteceram em 1381 e 1669, quando Catania foi atingida. Muitas outras, em menor escala, atingiram a ilha nas últimas décadas – mas os estragos hoje são praticamente nulos, graças ao sistema de previsão de erupções. Protegido dentro de uma área de 58 mil hectares, o parque onde fica o Etna pode ser visitado o ano todo. Vale a pena chegar até as crateras no topo do vulcão, para enxergar sua atividade.
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